A visita que nunca foi embora - RHSIA (liricismo)

LETRA [Verso 1] Trilho meus passos sobre estilhaços de expectativas, perspectivas sucessivas de derrotas previsíveis, afasto afetos, coleciono despedidas preventivas, transformando laços possíveis em ruínas irreversíveis. Achei que construía pontes, fortalezas, estruturas, mas meus próprios fundamentos produziram rachaduras, cada vínculo que abraço parece areia entre os dedos, cada sonho que cultivo floresce cercado de medos. Eu tentei. Contra mim mesmo eu lutei. Eu tentei. Ser mais do que demonstrei. Eu tentei. Mas meu orgulho ergueu muralhas monumentais, e meu ego transformou dúvidas em dogmas irracionais. Hoje caminho por desertos emocionais, com reservatórios vazios e discursos intelectuais, porque abandonei aquilo que me fazia respirar, para provar que eu estava certo sem saber onde chegar. Paradoxo doloroso da razão hipertrofiada: quanto mais lógica eu buscava, menos alma encontrava. [Refrão] E ela permanece. Sentada no mesmo sofá. Como uma rainha melancólica ocupando meu lugar. Minha velha depressão. Minha constante companhia. A única presença fiel em toda minha travessia. Ela nunca foi embora. Nunca perdeu a direção. Enquanto todos se despediam, ela segurava minha mão. [Verso 2] Ela conhece cada trauma catalogado na memória, cada derrota transformada em narrativa compulsória, cada silêncio acumulado entre respostas automáticas, cada lágrima escondida sob expressões diplomáticas. Quando perguntam se estou bem, minha voz executa protocolos. Ou distribuo mentiras elegantes. Ou ofereço monólogos. Porque explicar o vazio exige vocabulário inexistente, como traduzir um oceano para quem só conhece enchente? Como explicar o peso invisível da permanência, quando o próprio sofrimento já virou convivência? Ela me observa em silêncio. Eu observo de volta. Uma relação simbiótica construída na revolta. Quanto mais tento expulsá-la, mais ela ganha residência. Quanto mais nego sua sombra, mais fortaleço sua influência. [Ponte - Speedflow] Melancolia metódica, retórica neurótica, ótica caótica, dinâmica hipnótica. Consciência melindrosa, memória litigiosa, rotina venenosa, presença silenciosa. Cada pensamento produzindo outro pensamento derivado, cada medo alimentando outro medo camuflado. Circuito retroalimentado, sistema autocondenado, coração encarcerado, sonho desidratado. [Verso 3] Psicografo emoções em páginas imaginárias, utilizando hemorragias sentimentais como tintas literárias. Escrevo com aquilo que não consigo pronunciar. Transformo feridas em metáforas para não me afogar. A dor do poeta não é estética. Não é personagem. Não é pose. É uma tempestade sem nuvens. Uma guerra sem algozes. É sentir o coração pulsar sem participar da própria vida. É observar o mundo girar através de uma janela enferrujada. É desejar movimento e permanecer paralisado. É gritar internamente enquanto permanece calado. E ainda assim... Há algo estranho nisso tudo. Porque da mesma dor que me destrói nasce cada verso que construo. Da mesma sombra que me aprisiona surge a linguagem que possuo. Talvez por isso ela nunca parta. Talvez por isso continue aqui. Metade carrasca. Metade musa. Metade morte. Metade de mim.