Demônios na minha mente - RHSIA (liricismo)

LETRA Hey...RHSIA...liricismo Sou a saudade de um futuro que jamais aconteceu, a nostalgia antecipada de um destino que morreu. Arquiteto catedrais sobre escombros emocionais, enquanto desabo por dentro em proporções colossais. Sou a lágrima vestida com armadura de aço, o sorriso protocolar escondendo o próprio fracasso. Carrego no mesmo peito a rendição e a resistência, o deserto da dúvida e o oceano da consciência. Habito a fronteira entre o sublime e o vulgar, entre querer desaparecer e implorar para ficar. Sou o silêncio ensurdecedor de quem tem muito a dizer, e a verborragia desesperada de quem não sabe viver. Minha alma é um tribunal sem sentença definida, onde a culpa é inocente e a inocência é punida. Onde a verdade usa máscaras e a mentira usa véu, e cada resposta encontrada multiplica outro labirinto cruel. Sou a abundância faminta da modernidade doente, mil contatos na agenda, nenhuma presença permanente. Sou o homem hiperconectado na era da solidão, um arquipélago de afetos perdido na própria imensidão. Coleciono conquistas como quem acumula ruínas, transformando cicatrizes em discretas obras-primas. Quanto mais alto ascendo, mais percebo a gravidade, pois o cume também é uma sofisticada forma de saudade. Sou a riqueza miserável dos desejos infinitos, o luxo melancólico dos palácios mais bonitos. Porque toda posse carrega uma prisão invisível, e toda liberdade possui um preço inexprimível. Bebo da fonte do progresso, mas suspeito da evolução, pois máquinas ganharam alma enquanto homens viraram função. E nesse baile de algoritmos, cifras e distração, vejo a humanidade perder o próprio reflexo na multidão. Sou a memória insurgente dos que ficaram sem retrato, a biografia rasurada pelas margens do aparato. Minha caneta não escreve, realiza exumação, desenterrando identidades soterradas pela omissão. Transformo ausência em presença, invisível em monumental, faço da dor individual um patrimônio universal. Sou a literatura clandestina da realidade negada, a vírgula inconveniente na narrativa autorizada. Porque o poder teme espelhos mais do que revoluções, e teme perguntas mais do que exércitos e munições. Afinal, nenhuma muralha permanece imaculada quando a verdade encontra uma linguagem afiada. Sou a elegância da revolta, a lucidez inconveniente, o eco dos esquecidos retornando persistentemente. Pois enquanto houver silêncio comprado por comodidade, haverá versos traficando sementes de liberdade. Sou a juventude precipitada correndo contra o relógio, buscando significado num universo provisório. Filho de uma geração que registra cada segundo, mas esquece de experimentar a substância do mundo. Sou a velocidade imóvel da ansiedade cotidiana, a euforia instantânea seguida de ressaca humana. Conheço milhares de rostos sem conhecer meu reflexo, e acumulo informação sem compreender o contexto. Persigo aplausos efêmeros em arenas digitais, enquanto perguntas antigas permanecem essenciais. Quem sou? Para onde vou? O que realmente permanece? Quando a fama evapora e a cortina escurece? Sou o espetáculo da exposição permanente, e o mistério inexplorado escondido na mente. A multidão me observa sem jamais me encontrar, porque ser visto nem sempre significa enxergar. Sou o calendário fatigado contemplando a sucessão, o passado transformado em advertência e lição. Vi impérios erguerem-se sobre convicções frágeis, e gigantes desmoronarem por fundamentos instáveis. Sou a raiz subterrânea que alimenta a nova flor, mesmo sabendo que o mérito raramente alcança seu autor. Aprendi que a permanência é uma forma de coragem, num mundo apaixonado pela velocidade da passagem. Vejo vultos caminhando sob um céu de necrotério, cada sorriso parece só mais um disfarce etéreo. A cidade ergue monumentos para a própria decadência, vende felicidade enquanto distribui carência. Tem ódio nas esquinas, nas manchetes, nos sermões, nos apertos de mão falsos e nas falsas redenções. Todo mundo quer julgar, apontar, crucificar, mas ninguém carrega o peso de quem teve que sangrar. Que se foda a hipocrisia desses reis de apartamento, que discursam sobre dor sem conhecer sofrimento. Transformaram empatia numa peça de teatro, e humanidade num produto exposto em cada palco. Há fantasmas nos espelhos e ferrugem na memória, cadáveres de sonhos apodrecendo na trajetória. O futuro chega tarde, o passado nunca vai, e a esperança às vezes morre sem que ninguém perceba mais. Então a noite cai pesada sobre os ombros da razão, como chumbo derretido afundando o coração. Não existe romantismo no inferno emocional, só o eco de perguntas atravessando o vendaval. E o concreto permanece, indiferente à multidão, assistindo cada queda sem pedir explicação. Como um deus abandonado contemplando a criação, enquanto o mundo segue em guerra contra a própria condição.