COLO DE MÃE

‪@portelaadvogado‬ LETRA: PORTELA EDIÇÃO: MEL Colo de mãe Verso Mãe... a caneta azul borra o papel toda vez que eu tento te desenhar aqui fora. O tempo não passa, arrasta. Mas ó, a sua voz ainda é o teto da nossa casa. Escuta... A parede da sala ainda guarda teu sopro de alfazema, E o silêncio da noite virou meu maior poema. Envelheci dez anos em trinta dias, reaprendendo a ver O mundo com os olhos calejados de tanto te querer. A vizinhança murmura segredos, mas ninguém pra estender a mão, O promotor pede a pena, mas eu te dou a absolvição. A cruz que a senhora carrega hoje ecoa na minha espinha, Sou um eco de perguntas numa casa que já não é minha. Lembro do café morno, teu vulto a me guardar no portão: "Cuidado com as curvas do mundo, filha, que elas te engolem no chão." Eu cuidei, mãe... mas a inocência me cegou diante do altar, E o amor que eu achei que era vida, veio pra me sangrar. Quando a lâmina fria brilhou e a noite virou terror, A senhora não mediu o perigo, só ouviu o meu clamor. Entre o monstro e a sua menina, uma força divina te ergueu: A senhora arrancou das mãos dele o aço que me feriu e o abateu. Seu corpo virou meu escudo, sua coragem parou o segundo, Seu sangue lavou meu destino, seu amor calou o mundo! A senhora não cometeu um crime, mãe... Só traduziu na carne o maior amor do mundo. Refrão Se a saudade tivesse asas, ela derrubava esse muro E deitava o teu colo de sol no meu quarto escuro. Cada linha que escrevo é um pedaço de mim que te chama, A liberdade virou o milagre que a gente desenha na pele com seu nome. Cai a lágrima que rasga o papel... Mas a nossa fé não mudou de endereço, ainda mora no céu. Verso O rádio da cozinha ainda toca no mesmo horário, Eu vejo os teus óculos antigos em cima do armário. aqui fora o mundo é frio, calculam tudo numa mesa qualquer: Contam os anos da pena, mas não o infinito de uma mulher. Fui na visita... tudo feio, esquisito... presídio é máquina de moer gente viva, Ver teu cabelo mais branco, minha mente desmoronou na hora. Mas vi nos teus olhos a força que a matemática não pode medir: O amor que me deu a vida é um cálculo que eles não sabem dividir. Seja em pensamento, em oração, em poesia... tô contigo. Cuidando de tudo por aqui, da casa, do nosso abrigo. Pros homens de terno, é só um número num processo frio, Pra Deus e pra mim, é o milagre que me salvou do abismo. O sistema soma artigos pra te jogar na vala comum, Mas o teu amor infinito é a única conta que fecha no meu coração. Tô te escrevendo pra matar saudades, mãe. O quintal tá limpo. As plantas tão dando flores. O tempo vai passar rápido, você vai ver. Mãe, a senhora é meu anjo da guarda. Nosso amor é de outras vidas. A senhora me botou no mundo e depois me salvou... Me dando a vida por duas vezes. A gente se encontra no portão de saída, tá? Fica na fé. Refrão Se a saudade tivesse asas, ela derrubava esse muro E deitava o teu colo de sol no meu quarto escuro. Cada linha que escrevo é um pedaço de mim que te chama, A liberdade virou o milagre que a gente desenha na pele com seu nome. Cai a lágrima que rasga o papel... Mas a nossa fé não mudou de endereço, ainda mora no céu.