DESCANSAR EM PAZ

‪@portelaadvogado‬ COMPOSIÇÃO: PORTELA EDIÇÃO DE VÍDEO: MEL Descansar em paz Verso O barulho da chave na fechadura era o início do meu infarto. Madrugada fria, o estômago embrulhava antes dele entrar no quarto. vinha tropeçando, exalando o cheiro azedo da bebida, Aquela mistura de álcool e possessão que destruía a minha vida. Primeiro, queria “amor” na cama, me usava como um objeto, Um carinho forçado, violento, que rasgava o que ainda restava de mim. E logo depois do ato, sem aviso, o afeto virava fúria irracional, Um monstro acordava nele, desencadeando um espancamento brutal. Eram socos, chutes, puxões de cabelo, a parede manchada com o meu sofrer, batia com ódio, batia no escuro até eu desmaiar e esquecer. Até o mundo apagar numa poça de sangue. Verso Eu me lembro da fé que carregava no peito, Uma bíblia na mão e o perdão como leito. Eu olhava pra ele, no avesso do soco, E orava: “Meu Deus, ele só tá um pouco louco”. Acreditava na palavra, no amor que tudo cura, Que na manhã seguinte cessaria a tortura. Mas o amanhã chegava com o mesmo bafo de pinga, E a promessa de mudança era só mais uma intriga. Eu tinha medo, um medo que esmagava os ossos, De voltar pra casa dos meus pais com meus destroços. O que iam dizer? Que eu não soube segurar meu homem? Que as marcas no meu rosto têm o preço do meu nome? Então eu ficava. Silenciosa. Esperando a melhora. Refrão Me cobriu de promessas, me vestiu de silêncio vermelho Aceitei seus pedaços pra salvar nosso altar. Hoje a terra me cobre no fim do tormento... Quantas de nós têm que morrer pra você escutar? Verso Os anos passaram num sopro de terror discreto, Meus filhos cresceram sob aquele teto inquieto, estragado, secreto. E quando eles ganharam o mundo, batendo a asa para longe dali, A síndrome do ninho vazio se apossou da casa, e eu me perdi. O silêncio ficou mais alto, o espaço ficou maior no corredor, E eu ali, trancada com ele, na solidão do meu medo. Ele controlava a dispensa, a moeda, o centavo, o tostão, Me tirou o direito de trabalhar, estudar e passear, me estendeu a mão Não pra me apoiar, mas para me fazer refém, dependente, Uma prisioneira sem grades, humilhada civilmente. “Você não é nada sem mim, não tem onde cair morta, é uma incapaz”, E a humilhação moral me empurrava, sangrando, contra a porta. Verso Eu criei coragem. Peguei a sacola e caminhei com dor até o balcão. Mostrei os roxos na alma, os cortes no corpo, o boletim na mão. Mas o Estado veste terno caro e tem a voz fria, indiferente, Olharam pro meu drama de morte como quem olha um cliente. Uma folha de papel amassada chamada “medida protetiva” Não para o braço de um covarde, não mantém uma mulher viva! Me mandaram voltar pro lobo, disseram para eu sentar e esperar, Que o tribunal estava cheio e o juiz tinha muito processo para julgar. A viatura nunca passava na minha rua escura e esquecida, O poder público me deixou ali, desamparada, com a carne ferida. Eles assinaram meu fim com a tinta da negligência. Verso Hoje o dia amanheceu cinzento sem nenhum calor, Estou deitada nesta terra preta, onde finalmente já não existe dor. O perfume das rosas que ele trouxe eu não consigo mais sentir, E suas lágrimas de crocodilo na minha lápide não vão me fazer subir. Ele chora alto, finge desespero, ajoelhado sobre o meu caixão, O mesmo homem que me caçou como uma besta, sem um pingo de compaixão. Agora implora pra minha alma voltar, diz que está arrependido, Mas o meu peito está imóvel, o meu último sopro já foi consumido. É muito tarde para o remorso de quem mata, o teatro desmoronou, A certidão de óbito agora diz tudo aquilo que o Estado calou. Não esperem o meu fim para entender o sinal. A violência financeira, a psicológica, a humilhação moral... São os degraus exatos da escada que termina num chão de giz. Nenhuma mulher deve precisar morrer... para, enfim, descansar em paz. Refrão Me cobriu de promessas, me vestiu de silêncio vermelho Aceitei seus pedaços pra salvar nosso altar. Hoje a terra me cobre no fim do tormento... Quantas de nós têm que morrer pra você escutar?