Bio Travessia | Ep. 12: Alagoas, entre a extinção e a esperança

A Bio Travessia chega a Alagoas para apresentar duas frentes concretas de conservação da biodiversidade na Mata Atlântica nordestina: a reintrodução do papagaio-chauá (Amazona rhodocorytha) e a história de resistência do mutum-de-Alagoas (Pauxi mitu), espécie extinta na natureza e mantida viva graças ao esforço contínuo de conservacionistas e instituições parceiras. No litoral sul de Alagoas, a expedição visita a Reserva da Biosfera no Sítio Pau Brasil, área do Grupo Coruripe, onde diferentes instituições vêm unindo forças para devolver o papagaio-chauá ao seu ambiente natural. No ano passado, estivemos nessa mesma área acompanhando a soltura dos primeiros 20 indivíduos. Agora, retornamos para apresentar os resultados desse trabalho: aves já adaptadas à vida livre, alimentando-se na mata, interagindo, explorando o ambiente e formando pares. Trata-se da comprovação de que a reintrodução, quando conduzida com seriedade, base técnica e continuidade, gera resultados concretos. Esse projeto possui relevância institucional significativa. O Plano de Ação Estadual para Conservação do papagaio-chauá em Alagoas reúne o Ministério Público do Estado de Alagoas, o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, o Museu de Zoologia da USP, por meio do professor doutor Luís Fábio Silveira, a Fundação Lymington, o IPMA, o Ibama, a Prefeitura de Coruripe, usinas parceiras e diversas outras instituições. Não se trata de uma ação isolada, mas de uma articulação consistente, com governança, responsabilidade e um objetivo comum: contribuir para a refaunação da Mata Atlântica alagoana e fortalecer o que ainda resiste desse bioma. A Fundação Lymington também integra diretamente essa história. Foram 60 papagaios-chauá apreendidos em uma ação conjunta entre Ibama, Polícia Federal e ICMBio, após terem sido retirados do tráfico. Muitas dessas aves ainda eram filhotes muito jovens, algumas em fase de alimentação com papinha. Após a apreensão, os animais foram encaminhados à Fundação Lymington, em Juquitiba, no estado de São Paulo, onde passaram por um processo de reabilitação, manejo e preparação para a reintrodução. Somente após estarem aptos e com resultados sanitários negativos, conforme todos os protocolos exigidos, essas aves foram transportadas por via terrestre até o Aeroporto Internacional de Guarulhos, de onde seguiram de avião para Alagoas, dando continuidade ao esforço de reintrodução da espécie na Mata Atlântica nordestina. Neste episódio, a Bio Travessia também revisita um antigo parceiro da conservação: Fernando Pinto, nome ligado à história do mutum-de-Alagoas. Essa ave raríssima foi extinta na natureza em decorrência da destruição de seu habitat e da pressão da caça. A sobrevivência da espécie só foi possível porque os últimos exemplares foram resguardados sob cuidados humanos no fim da década de 1970 pelo criador científico Pedro Nardelli, originando a base genética que sustenta o trabalho até hoje. Ao longo do tempo, criadores e instituições mantiveram viva essa responsabilidade. Entre eles, destaca-se o trabalho conduzido por Roberto Azeredo e pela CRAX, que desempenha papel central na manutenção e reprodução da espécie sob cuidados humanos, preservando uma base genética indispensável para seu futuro. Paralelamente, parceiros históricos no território vêm atuando em educação ambiental e na preparação social para que, no futuro, a reintrodução do mutum-de-Alagoas na natureza ocorra com segurança e base sólida. A reintrodução não depende apenas da disponibilidade de indivíduos, mas também de habitat adequado, proteção, aceitação social, vigilância, governança e continuidade, um aspecto frequentemente negligenciado. Para mim, este é um episódio especialmente simbólico, pois não trata apenas de espécies ameaçadas, mas também se conecta à minha trajetória profissional. Tive a grande oportunidade de estagiar e trabalhar durante 13 anos no Criadouro Científico e Cultural de Poços de Caldas, de propriedade do saudoso Moacir Carvalho Dias. Foi nesse ambiente que construí uma base fundamental da minha formação, inclusive tendo contato direto com a história e os esforços de conservação dessas espécies. Por isso, reencontrar parceiros antigos e demonstrar, na prática, que a conservação funciona quando há integração real entre ciência, instituições, empresas, poder público e sociedade torna este episódio ainda mais significativo. Alagoas demonstra exatamente isso: é possível fazer conservação, é possível realizar reintrodução, é possível promover a refaunação. No entanto, isso só se concretiza quando diferentes atores decidem atuar de forma conjunta para restaurar o equilíbrio ecossistêmico e devolver vida à floresta. Somos todos interdependentes. Estamos todos interconectados. #BioTravessia #Alagoas #PapagaioChauá #AmazonaRhodocorytha #MutumDeAlagoas #PauxiMitu #MataAtlântica #ConservaçãoDaBiodiversidade #Refaunação #Reintrodução #FundaçãoLymington #GrupoCoruripe #IPMA