A ARTE DA CANTORIA
A ARTE DA CANTORIA Uma das finalidades do Instituto Nacional do Folclore é preservar e divulgar com autenticidade a música das danças tradicionais e dos conjuntos instrumentais típicos, representativos das diversas regiões culturais do país. Foi através do seu Núcleo de Música que surgiram as primeiras gravações de compactos, integrando a série que denominamos Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro, já em seu quadragésimo título. Com o desenvolvimento deste trabalho, começamos também a produzir ele-pês, projeto que, mais tarde, tomaria o nome de Arte da Cantoria, onde procuramos documentar as diversas manifestações da poética popular nordestina e da música que tão bem a caracteriza. A ideia nasceu após o lançamento do primeiro LP, intitulado Literatura de cordel (LP 1001), no qual José João dos Santos, o popularíssimo Azulão, cantador paraibano radicado em Engenheiro Pedreira, RJ, realizou a façanha de cantar, com sua voz afinada, boa dicção e um precioso toque de viola, dois folhetos de cordel: O marco brasileiro (1906), com 8 páginas e 34 sextilhas, de Leandro Gomes de Barros (1865-1918), e um inédito, do próprio Azulão, O homem do arroz e o poder de Jesus (1975), com 8 páginas e 49 sextilhas. Lançado naquele ano, o disco obteve grande sucesso, merecendo elogios dos mais conceituados críticos de nossa discografia e aparecendo, posteriormente, na listagem dos 'dez melhores do ano', nos principais jornais do Rio. Estimulados pelo interesse despertado entre os estudiosos, apresentamos, agora, o segundo da série (LP 1002), intitulado Regras da cantoria. É com esta denominação que os cantadores repentistas denominam o conjunto de géneros que compõem a arte de poetar, ou seja, uma espécie de gramática do verso e das rimas, que aprendem pela oral idade. Para que possamos configurar o aspecto formal de um desafio, apresentamos no repertório deste disco uma sequência de regras que, iniciadas pelas sextilhas, atingem, num movimento ascendente, o seu ponto culminante na complexidade poética domartelo-agalopado — nesta gravação, substituído pelo martelo-alagoano, por causa da minutagem do LP — para voltar, em movimento descendente, com gêneros semelhantes às sextilhas, que caracterizam a forma inicial das cantorias. No texto da contracapa, encontramos a conceituação dos géneros e gráficos explicativos das normas técnicas adotadas pêlos cantadores. Trata-se de um notável trabalho de autoria do nosso saudoso e inesquecível amigo Sebastião Nunes Batista (1925-1982), colaborador neste projeto, a quem in memoriam dedicamos esta gravação. A bibliografia neste setor é rara, e somente agora começam a aparecer publicações sobre o assunto. A propósito, gostaria de registrar que as primeiras dicas sobre as regras, as recolhi num artigo publicado, em 20-5-1955, no Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, onde o prof. Manuel Diegues Júnior informa a seus leitores: "São, assim, ricas e belas as maneiras de expressar-se do cantador popular, nas diversas manifestações de seu pensamento, através de ideias e de imagens, que não são palavras soltas ao vento; mas, ao contrário, existe neles uma realidade vivida que se traduz não somente na riqueza das formas (o grifo é nosso),'como ainda e, principalmente, na variedade e beleza das ideias." Aloysio de Alencar Pinto FACE A 1. Sextilhas (início de cantoria) 2. Gemedeira 3. Mourão-de-sete-pés (trocado) 4. Mourão-de-você-cai FACE B 1. Oito-pés-a-quadrão 2. Dez-pés-a-quadrão 3. Martelo-alagoano 4. Galope-à-beira-mar FICHA TÉCNICA Interpretação Cantadores Otacílio Batista e Oliveira de Panelas, que se acompanham em suas violas não artesanais de regra inteira e cinco cordas duplas. Gravação Realizada no estúdio da Rádio MEC, em 29-5-1979, sob a coordenação de Aloysio de Alencar Pinto e com a colaboração de Sebastião Nunes Batista. Técnico de Som Mário Lúcio da Costa (Rádio MEC) Montagem Realizada no estúdio da Funarte em 3-11-1983. Operador de som: Jorge Haouila. Orientação musical: Aloysio de Alencar Pinto. Pesquisa e Supervisão Aloysio de Alencar Pinto. Produção Instituto Nacional do Folclore. Diretora: Lélia Gontijo Soares. Rua do Catete, 179 - Catete/Rio de Janeiro/RJ. Capa: Xilogravura de Ciro Fernandes. 1984 FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTE Instituto Nacional do Folclore

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