MARÍLIA DE DIRCEU

MARÍLIA DE DIRCEU - Anna Maria Kieffer, voz; Gisela Nogueira, viola, guitarra; Edelton Gloeden, guitarra Falam os intérpretes - Anna Maria Kieffer, voz; Gisela Nogueira, viola, guitarra; Edelton Gloeden, guitarra. Nosso trabalho sobre as doze árias de Marília de Dirceu partiu da edição fac-similar publicada por Mozart de Araújo em A Modinha e o Lundu no Século XVIII, Ricordi, São Paulo, 1963. Os fac-símile reproduzem as mesmas árias publicadas por César das Neves em seu Cancioneiro de Músicas Populares, Porto, 1893/1898. Segundo César das Neves, os originais lhe foram cedidos por Antônio Luso da Silva, professor do Liceu do Porto. Eram litografados em caracteres manuscritos e vinham grafados na clave de soprano, com acompanhamento de viola e guitarra, como de uso em fins do Século XVIII e princípios do XIX. Não aparecia neles o nome do compositor. Ao publicá-los, César das Neves transcreveu os caracteres originais para notação moderna e com acompanhamento de piano. Infelizmente, esses originais se perderam. Tentamos, então, nos aproximar da primitiva versão reconstruindo o acompanhamento e nos baseando em métodos de viola e guitarra de fins de Setecentos e começo de Oitocentos. Neste período, a viola usada em Portugal e no Brasil é a descendente direta da viola da mano ou vihuela. instrumento ibérico muito em voga na Renascença e que chegou a substituir o alaúde nas cortes de Espanha e Portugal. No período colonial, espalhou-se por toda a América Latina e, com ligeiras variantes, é encontrada ainda hoje, no Brasil, com o nome de viola sertaneja ou viola caipira. A afinação utilizada na presente gravação é a mesma sugerida por Manuel da Paixão Ribeiro em sua Nova Arte de Viola, Coimbra, 1789 (e'e' bb gg ddI eeE). A guitarra do início do Século XIX já possui as mesmas características de encordoamento e afinação da guitarra atual que, no Brasil, é mais conhecida com o nome de violão. As doze árias de Marília de Dirceu pertencem a um gênero de música de sala muito praticado, em Portugal e no Brasil, nos concertos em família. Por esta razão resolvemos gravar estas obras de forma artesanal, evitando estúdios e procurando um local onde a reverberação natural nos transportasse a um salão da época. Da mesma forma, optamos por um tratamento vocal onde a articulação do texto poético fosse evidenciada em relação ao volume de voz e dinâmicas usados normalmente em teatros. Os textos das árias são nada menos do que doze das famosas "liras" que o poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga dedicou à sua amada Marília. Todas as liras da presente coleção pertencem à segunda parte da Marília de Dirceu editada em Lisboa em 1799 e escrita por Gonzaga durante a prisão na Ilha das Cobras. Portanto, as melodias das árias não podem ser anteriores a essa data o que nos obriga a situá-las, inclusive em razão de seus estilos, no início do Século XIX, época em que os poemas de Gonzaga atingiram o máximo de popularidade. Bibliografia: Araújo, Alceu Maynard: Folclore Nacional, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1964. Araújo, Mozart: A Modinha e o Lundu no Século XVIII, Ricordi, São Paulo, 1963. Borba, Tomás e Graça, Fernando Lopes Dicionário de Música, Edições Kosmos, Lisboa, 1963. Cascudo, Luís da Câmara Dicionário do Folclore Brasileiro, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1954. Eulalio, Alexandre Os melhores poemas de Tomás António Gonzaga, Global Editora, São Paulo, 1983. Matteis, Nicola The False Consonances of Music, London, 1682 / Fac-simili Chanterelle. Ribeiro, Manuel da Paixão Nova Arte de Viola, Real Officina da Universidade, Coimbra, 1789. Ricci, Luigi Variazioni - Cadenze - Tradizioni per Canto, G. Ricordi e C., Milano, 1945. Tyler, James: The Early Guitar, Oxford University Press, 1980. Face A I. Sucede, Marília bela II. Já, já me vai, Marília, branquejando III. Os mares, minha bela, não se movem IV. De que te queixas, língua importuna V. Eu vejo, ó minha bela, aquele númem VI. A estas horas eu procurava Face B VII. Arde o velho barril VIII. Ah! Marília, que tormento IX. Alma digna de mil avós augustos X. Vejo, Marília, que o nédio gado XI. Por morto, Marília, aqui me reputo XII. Se o vasto mar se encapela Gravado em São Paulo no auditório do Colégio Humboldt em abril/maio de 1985. A primeira edição deste disco foi realizada por Tacape Ltda. com patrocínio da Petrobras.