Salvador - Bahia, 1769: Moabe, o Caçador de Feitor que criava armadilhas impensáveis

Salvador, 1769 — uma cidade porto em ebulição: navios negreiros carregam corpos e segredos, o vento traz cheiro de cana, maresia e pólvora, e as ruas estreitas ecoam passos de quem vive à margem da lei. No meio desse mundo brutal nasce Moabe, homem de origens ambíguas — filho de uma mulher liberta e de um marinheiro estrangeiro — que aprendeu cedo a sobreviver entre os becos, os terreiros e as plantações da Bahia. Conhecido como “Caçador de Feitor”, Moabe se dedica a uma ocupação tão perigosa quanto incomum: perseguir e prender feitores e capatazes que, impunes, cometem abusos atrozes contra escravizados e pobres livres. Ele não espera pela justiça oficial; a constrói com suas próprias armadilhas — engenhosas, frias e tão precisas quanto cruéis. A história acompanha a escalada de um homem dividido entre o instinto de vingança e a fome por justiça. Moabe usa o conhecimento das marés, das trilhas do mangue e das rotinas dos senhores para conceber emboscadas que parecem saída de um engenho: fossos disfarçados, cabos embaraçados, armadilhas mecânicas improvisadas com peças de navios e engenhos rurais. Cada captura é uma performance calculada, que expõe o feitor como presa para a cidade inteira — e que deixa marcas profundas no próprio executor. No centro do conflito está Antônio de Sá, um feitor de origem abastada, protegido por senhores e por um sistema que vira as costas diante da violência institucionalizada. Antônio representa o nó que mantém o terror e o silêncio: acredita que o castigo físico e a humilhação são as bases da ordem. Ao confrontá-lo, Moabe não só cruza o caminho de uma figura poderosa, mas também estimula a aparição de inimigos mais perigosos — informantes, capangas, e autoridades que preferem a estabilidade do status quo. A rede de personagens é rica e contraditória: Rosa, parteira e curandeira, que guarda segredos essenciais ao passado de Moabe; Joaquim, jovem escravizado cujo desejo de liberdade inflama ações desesperadas; o padre Manuel, cuja fé é testada entre a compaixão e a obediência à Coroa; e Zuila, ex-mulher de um feitor morto, que vê em Moabe tanto vingança quanto a oportunidade de reescrever seu destino. Todos são peças de um tabuleiro em que cada armadilha tem custo humano. A narrativa mantém um suspense crescente, alinhando perseguições noturnas, planos meticulosos e dilemas morais: até que ponto a justiça se confunde com a violência? Moabe, cuja habilidade em montar armadilhas é quase artística, confronta o preço emocional de se tornar aquilo que caça. A trama culmina numa operação ousada no cais do Porto da Barra, onde um navio prestes a zarpar carrega não apenas corpos, mas nomes e documentos que poderiam desmantelar uma rede de impunidade — se Moabe arriscar tudo para interromper a viagem. Salvador, 1769 é uma história de tensão e tensão moral, um retrato cru e realista de uma cidade onde a lei é maleável e a coragem, rara. É sobre como um homem transforma dor em engenho e sobre as consequên cias imprevistas de quem decide enfrentar um sistema inteiro. Ao final, fica a pergunta que ecoa nas ruas e no coração dos personagens: libertar a cidade exige derrotar os que oprimem — ou destruir-se no processo?

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