Professor Dr. Emerson Elias Merhy

Em recente aula ministrada pelo Professor Dr. Emerson Elias Merhy para os Residentes de Saúde da Família vinculados ao Projeto Laboratório de Inovação na Atenção Primária à Saúde da Cidade de Dourado no Mato Grosso do Sul, foram discutidas as complexas nuances da formação médica no Brasil, abordando desde a estrutura tradicional baseada em grandes áreas e subespecialidades até a forma como fatores familiares frequentemente influenciam as escolhas dos estudantes. Segundo Merhy, nos primeiros anos da graduação, a faculdade é muitas vezes percebida pelos alunos como um mero percurso rumo ao internato, fase em que se espera já ter uma especialidade definida. No entanto, à medida que o estágio avançado se desenrola, surgem questionamentos sobre o modelo pedagógico vigente e despontam interesses por campos alternativos, como a medicina preventiva e social, que desafiam o formato tradicional. Durante a exposição, o professor Merhy compartilhou a própria decisão de não seguir uma especialidade formal, optando por uma formação ampla e diversificada. Essa escolha possibilitou atuar em diferentes áreas da saúde e favoreceu uma trajetória marcada pelo contato amplo com a clínica e, posteriormente, pelo envolvimento com a docência. Um dos pontos altos da aula foi o relato sobre experiências interprofissionais, especialmente com enfermeiros, que evidenciaram o valor da colaboração e a necessidade de superar a hierarquização habitual entre os profissionais de saúde. O cuidado, argumentou, só se concretiza de forma integral quando saberes distintos se unem em prol do paciente. A crítica ao ensino médico tradicional também esteve presente na fala, com ênfase na dificuldade de superar métodos baseados exclusivamente na memorização de conteúdos em detrimento da real vivência prática. O professor Merhy defendeu que a aprendizagem mais transformadora ocorre, de fato, quando o estudante se envolve com situações concretas e vivencia a relação direta com o paciente, ampliando assim o repertório de competências essenciais ao cuidado. Outro aspecto destacado na aula foi a abordagem sobre as diferentes tecnologias envolvidas no contexto da saúde: desde instrumentos e equipamentos médicos até o conhecimento científico e, principalmente, as tecnologias relacionais, como o acolhimento, a escuta ativa e o vínculo com o paciente. Segundo o professor Merhy, a integração desses instrumentos é fundamental para alcançar uma atenção à saúde mais efetiva e centrada na qualidade de vida da pessoa atendida. Ao analisar a prática terapêutica, Merhy ressaltou que o objetivo do cuidado não deve se limitar à eliminação de sintomas, mas, sim, à promoção da vida em sua completude, respeitando a singularidade de cada paciente. Alertou ainda para os riscos de desumanização e fragmentação do atendimento em razão do uso excessivo de protocolos padronizados e defendeu a construção do projeto terapêutico singular, formulado em parceria com o próprio paciente a partir de perguntas bem elaboradas e do reconhecimento da experiência do outro. A diversidade e a composição das equipes de saúde também estiveram em pauta. O professor Merhy chamou atenção para as desigualdades regionais e para o fato de que uma equipe eficiente não se resume à reunião de diferentes especialidades, mas à constituição de um espaço de cooperação e responsabilidade coletiva. No encerramento da aula, foi ressaltada a necessidade de revisitar e atualizar as bases do ensino médico, estimulando práticas multiprofissionais, avaliações interprofissionais e o desenvolvimento de pesquisas que explorem o impacto do cuidado individualizado e da escuta atenta, apontando para a importância do aprendizado permanente, do diálogo aberto entre profissionais e do protagonismo do paciente na sua própria trajetória terapêutica. Assim, a formação e o exercício profissional em saúde ganham novo sentido, centrados não apenas no domínio técnico, mas na sensibilidade, na criticidade e na disposição para o encontro verdadeiro com as pessoas.