Daniel Sampaio (psiquiatra): "Inquieta-me, sobretudo, a pouca profundidade da relação amorosa atual"
Não fosse psiquiatra, Daniel Sampaio (n. 1946) imaginava-se escritor a tempo inteiro. Filho de uma professora de inglês, e um dos mentores do Plano Nacional de Vacinação, irmão de um antigo presidente da República, cresceu na influência de leitores ávidos, rodeado de livros. No Natal dos 9 anos, a mãe deu-lhe a ler Fernando Pessoa. No liceu Pedro Nunes, em Lisboa, onde integrou a comissão pró-associação dos liceus, foi marcado pelos professores de português. Mas, aos 18 anos, o dilema foi entre o teatro e a medicina. Ao escolher a segunda, entrou no hospital que só deixaria aos 70. No Hospital de Santa Maria, especializou-se na intervenção com adolescentes, montou para eles atendimentos especializados na prevenção do suicídio e no tratamento de perturbações do comportamento alimentar. Formado entre psicanalistas, voltou-se nos anos 80 para as psicoterapias sistémicas, que não dispensam o entendimento das famílias e das relações para compreender a pessoa. Por isso, ajudou a trazer para Portugal a terapia familiar, fundou com colegas-amigos a Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (1979), e, mais tarde, a Sociedade Portuguesa de Suicidologia (2000). Foi professor catedrático na faculdade de Medicina paredes meias com o hospital, do qual se despediu como chefe de serviço em 2016, no limite da idade da reforma. Publicamente, bateu-se pela obrigatoriedade da educação sexual nas escolas (2009) e pela integração de psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (2017), dirigindo grupos de trabalho a pedido de dois governos socialistas. Três anos depois de integrar a comissão para o estudo dos abusos sexuais de crianças na Igreja Católica — o “melhor grupo de trabalho” em que já esteve — diz-se desiludido com a resposta da Igreja. A escrita acabou por vir à boleia da psiquiatria, alimentada pelas consultas. Daniel Sampaio escreveu 27 livros a partir dos jovens, dos casais e das famílias com quem se cruza. À beira dos 80 anos, anda a reduzir as horas de consultório, à procura de mais tempo para a família e a leitura. No futuro, gostava que o recordassem pelas suas causas. 👉Entrevista da jornalista Margarida David Cardoso. Com vídeo de Dinis G. Lopes e Rui André Soares. 👉Entrevista em formato escrito: https://comunidadeculturaearte.com/en...

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