Como o Homem Peca — ou cai em escrúpulos.

“Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor.” Filipenses 2:21 Eis a seguir os dois pensamentos mais desgraçados que um cristão vivo pode ter: “Estou salvo,” e “Estou perdido.” Estão nos dois extremos; o primeiro é o pecado da presunção, o outro, do desespero. São chamados desgraçados porque blasfemam a Graça. Um arroga para si uma graça que, se for verdadeira, só poderia ter sido roubada das mãos de Deus. O outro, a nega e a acusa de impotência. Não se desviam do bom juízo dois bons pensamentos que se opõem a eles em moderação: “Estou sendo salvo,” diz o justo, e “Estou me condenando,” diz aquele quem acabou de levar um susto e uma luz de Deus, prestes agora a se emendar e endireitar-se na graça. Não há nada mais miserável que o pecado. O demônio não possui necessidade alguma de tentar quem já escorrega no tobogã da desgraça até a boca do inferno, exceto a tentação para não se arrepender e converter-se. Ora, aos católicos devotos, molesta-lhes o mistério da iniquidade e da vontade: Como pode alguém que jurou a Deus nunca mais pecar, pecar? E até mesmo dentro da mesma hora. Como pode alguém querer dum jeito, e logo querer o contrário? Para o ímpio, ao demônio basta sugerir aquilo que ele a princípio já quer habitualmente. Noutro lado, com o católico devoto, a astuta inteligência angélica trama dum modo especial. É da experiência de muitos que os diabos não tentam o homem a simplesmente mudar de ideia, como que dizendo, “Eu sei que tu não queres pecar, mas queira, queira!” Na verdade, o tentador intenta persuadir a inteligência do católico de boa vontade a acreditar não que ele quer o bem e deva mudar e querer o mal, mas a acreditar que ele já está querendo o mal no momento presente, e portanto já está consentindo e que é fútil resistir agora. Na teologia moral, há uma sorte de consciência errônea chamada perplexidade, e trata-se de quando alguém crê que todas as possíveis ações que pode tomar, incluindo não agir, seria um pecado, e portanto teme estar forçado a pecar—é chamado de errôneo porque Deus nunca permite que não haja escapatória que preserve a inocência da alma, logo é questão de Fé que sempre haja jeito de prosseguir sem ofender a Deus, já que Deus não nos arma armadilhas, nem fabrica situações impossíveis. Portanto, diz-se que a perplexidade real e perfeita, distinta duma sensação ou temor de perplexidade aparente, não existe. É esta confiança que deve brandir um católico em estado de tentação. Porém, não sendo nós perfeitos, é comum que um homem, ao ter saído duma situação em que ele sinceramente creu-se perplexo, sem saída, “deixou-se” pecar, e com contrição imediata e automática, agora que acabou, crê ter cometido pecado mortal. Ora, aqui responde-se que a experiência sincera da perplexidade priva a vontade de dar consentimento pleno, requisito do pecado mortal. Acrescento que também é cogitável, adentrando a casuística, que alguém conhecedor disto tudo—isto é, mesmo sabendo que não existe perplexidade real—pode encontrar-se numa situação de tentação em que, tendo sinceramente tentado buscar alternativas a pecar, eles não vieram-lhe às ideias, e portanto “deixou-se” pecar relutantemente. Sobre Casuística e os requisitos Vós já deveis ter ouvido falar dos requisitos para confeccionar o pecado mortal. Que todos eles são necessários ao mesmo tempo é um fato curioso. O pecado mortal não é o prêmio duma lista arbitrária de cumprimentos arbitrários, como que desbloqueado após acertar as letras duma senha de três dígitos. Opera mais analogamente a uma receita de bolo, onde os ingredientes interagem, tal que o produto depende de cada interação entre os componentes. Ressalta-se que embora sejam aqueles três os ingredientes do pecado mortal, há distinção do universal e o particular. Não existe pecado mortal universal, apenas particular, ou seja, pertencente a casos reais acontecidos no tempo. Aquilo que se procuraria chamar de universal é o pecado grave, referente à matéria grave. De resto, tudo é aplicativo. Isto significa que não basta apenas ter conhecimento e consentimentos gerais, mas aplicados, para haver pecado mortal atual, e não só material. Entretanto, no Brasil, a apresentação deles é feita esvaziada das distinções que são próprias da Sagrada Teologia. Os incultos devem imaginar que se trata, em termos brutos, de matéria grave, consentimento, e conhecimento. Acrescentado o fato da casuística reinar sobre o discernimento de pecados formais, entende-se o seguinte: A matéria é grave ou venial, objetivamente, em cada caso. O conhecimento possui uma distinção frequentemente oculta, o “pleno”, e por isto seria melhor chamá-lo não disso, mas de advertência plena. A casuística obriga que para ocorrer pecado mortal, o homem não somente tenha aprendido no passado o que constituem as matérias de cada pecado na sua catequese, mas que este reconheça a matéria grave enquanto ofensa a Deus em particular no ato que ele está prestes a cometer.