Ile Ola Omi Opo Araka

Vídeo em HD Gravado entre 2014 e 2015 Foi ali que tudo começou. Dez anos se passaram. Ouvindo de novo as vozes de quem fez essa história, me perguntei: esses temas ainda são atuais? O que mudou nesses dez anos na comunidade, no mundo, na intolerância? Naquele tempo, percorri diversas casas para falar sobre intolerância religiosa. Fui a Brasília, onde terreiros estavam sendo queimados e depredados. Pessoas passavam armadas e atiravam. Vi marcas de bala, casas destruídas, igbás no chão. Ouvi relatos de zeladores expulsos de suas casas no Rio por capangas de igrejas. Saíam ou morriam. Também estive em Salvador, Itaparica, São Paulo, Campinas, Niterói... Sempre a mesma dor. Na época, concluí que isso não ia acabar tão cedo. Mas também vi que o povo do santo podia — e devia — reagir. Fazer algo. Havia um debate sobre tradições, Ifá, e o tal do “modo certo”. Mas o que eu via — e ainda vejo — é uma competição constante entre nós. Como se disputássemos quem tem mais axé, mais filhos, mais poder. Como se fosse preciso afirmar quem veio antes. E, no meio disso, esquecemos que somos melhores juntos. Enquanto cada casa andar por si, o povo do santo seguirá sendo atacado por fora e desunido por dentro. Eu tinha nove anos de santo. E pensava: como era antes de mim? Quando a polícia invadia casas de axé — Mãe Carmem passou por isso. A intolerância mudou de forma, mas nunca cessou. Ainda me pergunto: e nós? Será que um movimento coletivo teria algum efeito? Em Brasília, ouvi um parlamentar dizer “Estado laico”. Pedi que olhasse para trás. Confuso, me perguntou o porquê. Respondi: — Há uma cruz na parede. O senhor pode me explicar? Ela talvez ainda esteja lá. O problema não é a cruz. É quem governa com religião debaixo do braço. Estado laico é o que garante que nenhuma fé precise pedir licença para existir.