O Círio do Merendeiro ao Santuário do Senhor Jesus do Carvalhal (Bombarral) (105)

Na Quinta-Feira da Ascensão, o calendário recorda o antigo Dia da Espiga, tempo em que o campo se veste cor e alegria e o povo recolhe as flores que simbolizam o pão, a alegria e a paz. Mas no Merendeiro, a celebração transborda o dia santo e ganha o seu auge no domingo seguinte. É nesse despertar de devoção que a aldeia se faz caminho, unindo-se no Círio do Merendeiro ao Santuário do Senhor Jesus do Carvalhal, no Bombarral. Esta romaria não é apenas um percurso físico entre caminhos e vales; é uma verdadeira chama de devoção. Nela, o suor do trabalho diário encontra o descanso na gratidão do espírito. A tradição diz-nos que a fé não habita apenas nos templos, mas floresce na alma de quem trabalha a terra e reconhece nela a mão do Criador. Tudo germinou em 1980, quando quatro homens de mãos calosas e coração humilde: Manuel Vieira, Manuel Timóteo, José Patrício e José Vieira plantaram a semente desta promessa. Como agricultores, sabiam que a colheita é um dom, e decidiram retribuir a generosidade dos campos com o tributo da caminhada que gerações anteriores já seguiam. No ano seguinte, em 1981, a força feminina veio alicerçar este culto. Com a presença de Maria Isabel dos Santos Martins, esposa de Manuel Vieira, o Círio ganhou uma nova dimensão: a doçura da oração pela saúde e a esperança renovada de, ano após ano, ter o privilégio de regressar aos pés do Senhor Jesus do Carvalhal. Para que uma tradição permaneça viva, ela precisa de mãos que a cuidem e vozes que a cantem. Hoje, em 2026, assistimos à passagem deste testemunho. O elo entre pais e filhos personifica-se agora em Maria de Fátima Vieira Assis e em Paulo Pereira, que assume a nobre missão como novo Juiz. É esta continuidade geracional que garante que o Círio do Merendeiro não seja só uma recordação do passado, mas uma herança que vive no presente. "As memórias, as vivências e os relatos de fé aqui partilhados são os fios dourados que guiam a identidade do Povo do Merendeiro. Preservar este Círio é salvaguardar a essência desta religiosidade." O Espaço Memória - Associação Maria Matos expressa o seu profundo agradecimento a todos os guardiões desta história que partilharam os seus testemunhos: ao Padre Rui Nunes, Maria Isabel Martins, Carlos Gomes, Ester Cruz, Luís Pereira, Carlos Nunes e Maria de Fátima Vieira Assis. Que o Senhor Jesus do Carvalhal continue a abençoar os passos destes romeiros e de tantos outros, e que as espigas colhidas continuem a ser o símbolo de uma aldeia que nunca esquece as suas raízes enquanto caminha para o futuro.