1 - Música Regional Portuguesa - Alentejo - Tralhoada

Homens e mulheres do Alentejo colaboraram neste nosso inquérito, prestando-nos calorosa ajuda, contrariada, todavia, pelo facto social da emigração, que ia tornar problemática a reunião de grupos corais não organizados. Esta emigração, bem como o processo de mecanização agrícola, que não lhe é alheio, trazem como consequência a desagregação dos ranchos de trabalhadores nas sazões próprias, que constituem como que pequenas comunidades participando das mesmas preocupações e que, em larga medida, o canto coral exprime. Mais directamente ainda, a emigração acarreta a falta de elementos especializados, tais como pontos e alto, já de si raros pelo facto da sua mesma especialização. Se a isto acrescentarmos certas interdições locais, como a que atinge o costume de, por desfastio, se cantar de noite pelas ruas das aldeias, teremos especificado alguns factores directos da decomposição progressiva do canto coral alentejano. Paradoxalmente - mas sem dúvida na intenção de paliar este estado de coisas - proliferam concursos baseados em critérios duvidosos e destinados a favorecer a multiplicação de grupos corais organizados que, na sua generalização, tendem para a banalização do canto nas suas formas poéticas e musicais. Graças a uma certa estabilidade, que lhes é garantida por uma existência oficializada, estes grupos, aliás, arriscam-se a constituir dentro em breve o último reduto do canto coral, extirpado contudo de toda a espontaneidade e dinamismo criador. Insistiremos no canto coral porquanto nele descortinamos - e sem que esse canto possa pretender, como adiante o observa o nosso colaborador Fernando Lopes-Graça, a representar toda a tradição musical do Alentejo - aquelas características próprias do canto folclórico, que é o achar-se funcionalmente ligado às fainas e ritos da vida rural. O canto coral alentejano nasceu num ambiente fortemente caracterizado, que não se cifra apenas na vastidão da paisagem de que tanto se tem falado e que bastaria só por si para lhe imprimir a sua dolorosa monotonia. Tributário e testemunha de certas estruturas económicas e sociais específicas, desenvolveu-se, antes de mais nada, nessas comunidades de homens, ombro a ombro unidos, como filhos do mesmo labor. Mas, companheiro de trabalho, está igualmente presente na casinha do ganhão nas horas de folga, presente ainda nos dias de festa e nas horas cerimoniais, quando, como tantas vezes sucede, ritos religiosos e agrícolas se confundem. E é por isso que ela sabe exprimir toda a gama de sentimentos e emoções de um povo que, através dele, preserva uma certa forma de unidade espiritual. Os textos poéticos, que na sua tão viva variedade, até nós chegam, traduzem complexos específicos nos quais, através dum simbolismo que facilmente se deixa decifrar, se descobrem aspirações profundas, tal como o revelam aquelas quadras chamadas cantigas, que se desenvolveram em torno de motivos essenciais ou se renovam ao sabor dos acontecimentos e que nesta polifonia severam encontraram um como que suporte natural. A lenta asfixia do canto coral e, mais geralmente, do canto tradicional alentejano, chamam a uma tomada de consciência todos aqueles que lhe reconhecem esta função: a de ser solidário, na marcha do tempo, com todo um povo para quem o canto é raiz de vida e flor de esperança. Deste modo o imperativo da sua preservação - passo primordial para a sua avaliação e integração na cultura nacional - parece-nos justificar amplamente as canseiras que nos custou este singelo trabalho, por nós dedicado a este povo, ao qual, mais do que nunca, é lícito aplicar a sentença: "povo que canta não pode morrer". Michel Giacometti 1. Tralhoada Canto de trabalho, um aboio proveniente de Monte das Flores, Évora. Tralhoada é termo que, nas províncias do Ribatejo e do Alentejo, se aplica propriamente a três juntas de bois que puxam um carro, uma charrua, etc., e que, neste caso, se assimla à ancestral cantilena de afago e incitamento aos animais durante o trabalho da lavra. Na recolha em questão, as três juntas de bois atrelam-se a um arado pesado com carreta, que no Alentejo se designa por "lamego". O que aqui se dá, cantado por dois homens que, consoante o modo tradicional, se respondem um ao outro, constitui porventura a espécie folclórica de mais funda primitividade neste disco arquivada e identifica-se de toda a evidência com um antigo tipo de cantos de ar livre que parece ter o seu habitat próprio na bacia do Mediterrâneo.