Rio Mau... ficou em mim

Na Foz onde o rio se entrega E aprende o nome do mar, Havia um tempo sem pressa Que ninguém queria contar. E a lancha cortava o silêncio Entre margens de saudade, Levava vidas inteiras Sem saber da cidade. E eu… Nem sabia que ficava Cada passo que eu dava Dentro de mim… Ficou em mim… O som do rio a chamar, Os nomes ditos devagar Como quem fica por vir… Ficou em mim… A terra antes de partir, E eu posso ir para onde for… Mas nunca saio daqui… Subia a costeira em criança Com o mundo por descobrir, E lá do alto da Capela Aprendi a existir. A Boneca e São Domingos Falavam sem eu saber, E eu era parte do tempo Antes de o compreender. E eu… Sem saber guardava Cada rosto que passava Dentro de mim… Ficou em mim… O som do rio a chamar, Os nomes ditos devagar Como quem fica por vir… Ficou em mim… A terra antes de partir, E eu posso ir para onde for… Mas nunca saio daqui… E lá em cima… Onde o mundo se abre inteiro… Eu via tudo tão longe… E tudo tão verdadeiro… Mas nunca era distância… Era só reconhecimento: Há lugares que nos vivem Muito depois do momento… Ficou em mim… O som do rio a chamar… E eu posso ir para onde for… Mas nunca saio daqui… Nunca saio daqui… Nunca saio daqui… Rio Mau… ficou em mim… Na foz... onde o rio se entrega...