Este Lugar Não Existe, Herberto Helder
Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto. Gosto do deserto. Levei tábuas e pregos. Ferramentas, as belas ferramentas dos homens. Levei água, víveres, sementes. Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos – também não eram sementes de máquinas. As belas máquinas dos homens. Não me lembro se fui pelo ar. Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas. Não me lembro de quando se vai deixando. Foi portanto pelo ar. Levei tudo para experimentar o deserto. Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas – as belas ferramentas. Tenho uma pequena ciência. Aprendi. Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto. Ficava no meio. No meio é bom – há uma coisa que se chama à volta. Serve para estar bem só. Comprei tábuas, sementes e águas. Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo. Eram sementes de cabeças de crianças. Tenho uma pequena ciência. Fiz como nos livros. Dividi-me em sete dias. Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego. Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos. Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia. Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto. No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre. Foi então que senti o sangue a bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia. No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão – as sementes –, lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento. Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra – era então o sexto dia. E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira. Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso corpo solitário sente deitado sobre a terra. Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia. Era uma sementeira de cabeças de crianças. Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário. Não eram. Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças – era terrível. Seriam verdes-garrafa? Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças – vivas, oscilantes, latejantes sobre os pedúnculos que irrompiam do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria. Começaram então a sussurrar – e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo. Mas eram cabeças de crianças. E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração, estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças. Eu nunca mais dormiria – era de noite, era agora a minha noite. E então elas começaram a cantar – na minha noite. Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa – e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes. No deserto. O meu coração nunca mais dormiria. Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário. Eram cabeças de crianças.

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