Coral e Outros Poemas, de Sophia de Mello Breyner Andresen: resumo, análise e dicas

Prof. Laudemir apresenta resumo, análise e dicas de Coral e Outros Poemas, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Liberdade Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Foi no mar que aprendi Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela Ao olhar sem fim o sucessivo Inchar e desabar da vaga A bela curva luzidia do seu dorso O longo espraiar das mãos de espuma Por isso nos museus da Grécia antiga Olhando estátuas frisos e colunas Sempre me aclaro mais leve e mais viva E respiro melhor como na praia A forma justa Sei que seria possível construir o mundo justo As cidades poderiam ser claras e lavadas Pelo canto dos espaços e das fontes O céu o mar e a terra estão prontos A saciar a nossa fome do terrestre A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia Cada dia a cada um a liberdade e o reino – Na concha na flor no homem e no fruto Se nada adoecer a própria forma é justa E no todo se integra como palavra em verso Sei que seria possível construir a forma justa De uma cidade humana que fosse Fiel à perfeição do universo Por isso reconheço sem cessar a partir da página em branco E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo Regressarei Eu regressarei ao poema como à pátria à casa Como à antiga infância que perdi por descuido Para buscar obstinada a substância de tudo E gritar de paixão sob mil luzes acesas Ressurgiremos Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos E em Delphos centro do mundo Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta Ressurgiremos ali onde as palavras São o nome das coisas E onde são claros e vivos os contornos Na aguda luz de Creta Ressurgiremos ali onde pedra e estrela e tempo São o reino do homem Ressurgiremos para olhar para a terra de frente Na luz limpa de Creta Pois convém tornar claro o coração do homem E erguer a negra exactidão da cruz Na luz branca de Creta A liberdade que dos deuses eu esperava Quebrou-se. As rosas que eu colhia, Transparentes no tempo luminoso, Morreram com o tempo que as abria. No tempo dividido E agora ó Deuses que vos direi de mim? Tardes inertes morrem no jardim Esqueci-me de vós e sem memória Caminho nos caminhos onde o tempo Como um monstro a si próprio se devora. Fúrias Escorraçadas do pecado e do sagrado Habitam agora a mais íntima humildade Do quotidiano. São Torneira que se estraga atraso de autocarro Sopa que transborda na panela Caneta que se perde aspirador que não aspira Táxi que não há recibo extraviado Empurrão cotovelada esepra Burocrático desvario Sem clamor sem olhar Sem cabelos eriçados de serpentes Com as meticulosas mãos de dia-a-dia Elas nos desfiam Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno Sem rosto e sem máscara Sem nome e sem sopro São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria Já não perseguem sacrílegos e parricidas Preferem vítimas inocentes Que de forma nenhuma as provocaram Por elas o dia perde seus longos planos lisos Seu sumo de fruta Sua fragrância de flor Seu marinho alvoroço E o tempo é transformado Em tarefa e presa A contra tempo Marinheiro sem mar Longe o marinheiro tem Uma serena praia de mãos puras Mas perdido caminha nas obscuras Ruas da cidade sem piedade Todas as cidades são navios Carregados de cães uivando à lua Carregados de anões e mortos frios [...] Regresso Quem cantará vosso regresso morto Que lágrimas, que grito, hão-de dizer A desilusão e o peso em vosso corpo? Portugal tão cansado de morrer Ininterruptamente e devagar Enquanto o vento vivo vem do mar Quem são os vencedores desta agonia? Quem os senhores sombrios desta noite Onde se perde morre e se desvia A antiga linha clara e criadora Do nosso rosto voltada para o dia? Pranto pelo dia de hoje Nunca choraremos bastante quando vemos O gesto criador ser impedido Nunca choraremos bastante quando vemos Que quem ousa lutar é destruído Por troças por insídias por venenos E por outras maneiras que sabemos Tão sábias tão subtis e tão peritas Que nem podem sequer ser bem descritas Exílio Quando a pátria que temos não a temos Perdida por silêncio e por renúncia Até a voz do mar se tornar exílio E a luz que nos rodeia é como grades O velho abutre O velho abutre é sábio e alisa as suas penas A podridão lhe agrada e seus discursos Têm o dom de tornar as almas mais pequenas 25 de abril Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo Revolução Como casa limpa Como chão varrido Como porta aberta Como puro início Como tempo novo Sem mancha nem vício Como a voz do mar Interior de um povo Como página em branco Onde o poema emerge Como arquitectura Do homem que ergue Sua habitação 27 de Abril de 1974 [Continua no primeiro comentário fixado abaixo.]