Diálogos contra a maré | O legado social do Papa Francisco

Na sua simplicidade foi dos papas mais complexos de toda a História da Igreja. Sem esconder a sua fragilidade, irradiando proximidade com as nossas dores, sentinela da fé evangélica, espírito sagaz e acutilante, bondoso, amigo dos pobres, de humor contagiante, profeta da ecologia global. Transformou profundamente o estilo de governo da Igreja, favorecendo o acolhimento, o acompanhamento dos fiéis, mesmo daqueles em situações «irregulares», promovendo uma pastoral para além das normas, olhando sem temor para a condição das pessoas. Criticou a idolatria do dinheiro e o descarte dos doentes e idosos, o «culto do mercado». Acabou com o discurso condoído e arrependido, protagonizando uma linguagem profética de criminalização das ações torpes do clero pedófilo. Mandou os pastores para o meio das ovelhas, sujando sapatos e botas no mesmo chão dos últimos e dos aflitos, de modo a assumir-lhes o próprio cheiro. Para além dos templos dourados e confortáveis, hospitais de campanha. Para além da inércia, discípulos nómadas e livres de alianças comprometedoras. Uma Igreja de inclusão e não de anátemas, num mundo sem consumismo, indiferença, e idolatria do eu.