Quando a Reconciliação é Impossível?

Uma experiência comum das pessoas envolvidas relacionamentos conflituosos, controladores e abusivos é a fantasia de que as coisas podem ser diferentes. A maior parte das pessoas que permanecem nesses relacionamentos nutrem a expectativa de que se agirem diferente, ou explicarem as coisas melhor, o outro poderá entender os problemas e mudar. Para entender se uma reconciliação é possível é importante, antes de tudo, saber se ela é saudável ou não. Mesmo nas relações saudáveis as pessoas erram ou se desentendem (isso é humano, não há relação perfeita) mas após um erro ou um desentendimento há pedidos de desculpas, há remorso e culpa de quem errou, há tentativas sinceras de mudança. Nesses casos há possibilidade de reconciliação e reparação dos problemas passados. Em relações com pessoas conflituosas ou transtornadas as coisas não costumam ocorrer dessa forma. Essas relações, não raro, se transformam em relações abusivas, aonde só uma pessoa está certa e a outra está errada. Nesses tipos de relações raramente vemos pedidos de desculpas após um erro ou desentendimento, mas justificativas seguidas de acusações; quando há desculpas é por meio de justificativas que culpam o outro. Não parece haver remorso ou culpa nos erros, pois não há mudança, e não há mudança porque realmente não acreditam ver nada de errado nos erros cometidos. Uma relação desse tipo, aonde não há tentativas de entendimento e mudança, aonde tudo vira conflito, gera ressentimento num longo prazo e se torna cada vez mais instável, desregulando emocionalmente as pessoas ali envolvidas. A reconciliação não é impossível (ou improvável) apenas numa relação abusiva, mas também numa relação unilateral. Relacionamentos com pessoas manipuladoras e egoístas podem não vir a se tornar verdadeiramente abusivas, mas normalmente se tornam unilaterais, com apenas as vontades de um lado sendo importantes e a do outro sendo negadas. Nesse tipo de relação apenas um se vê como correto em tudo e qualquer pequeno desacordo se torna motivo de grandes brigas. O resultado é que a outra pessoa envolvida passa a evitar conflito, eventualmente se tornando passiva ou até deprimida, ou passa a se tornar também desregulada, por ficar cada vez mais ansiosa com suas vontades negadas ou ignoradas. Um "sintoma" comum de uma relação que não pode ser reparada, na qual a reconciliação se torna impossível, é a exaustão das tentativas de achar as palavras certas. Parece que nada que é dito adianta; seja do modo que for dito, o conflito se mantém, o desentendimento continua, nada se resolve. Para a pessoa que tenta reparar as coisas e buscar entendimento a sensação, após inúmeros fracassos na tentativa de se comunicar efetivamente, é de medo, de desespero. A continuidade da busca de reconciliação nesse contexto costuma resultar em mais conflitos e acusações. A questão é que não há nada a ser dito, não se trata de dizer da maneira certa, porque se está lidando com alguém que não quer entender, não quer reparar nada e também não se importa. O afastamento é a única solução uma vez que se sabe que não há nada a fazer e que a insistência tende a piorar as coisas. _________________ Alan Delazeri Mocellim é Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do departamento de Sociologia e da pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Leciona, pesquisa e orienta nas áreas de Sociologia das Emoções, Sociologia do Conhecimento e Psicologia Social. Currículo disponível em: http://lattes.cnpq.br/0264933519544511 O objetivo do canal é discutir em perspectiva interdisciplinar, sociológica e psicológica, relacionamentos conflituosos e abuso emocional, nas relações familiares e amorosas, refletindo sobre suas causas e suas consequências. Serão discutidos temas como relacionamentos abusivos, traumas de origem familiar, comportamento controlador, comportamento passivo-agressivo, egoísmo e manipulação, agressividade e autocontrole, aprendizagem social das emoções, regulação emocional, estresse pós-traumático, borderline e narcisismo, codependência e contradependência. Os vídeos aqui apresentados são resultado do projeto de extensão "Violência Psicológica e Abuso Emocional" desenvolvido por Alan Delazeri Mocellim na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Qualquer uso de material aqui apresentado deve, portanto, referenciar o autor (MOCELLIM, Alan) e o apoio institucional da Universidade Federal da Bahia (UFBA).