Monstros do capital: o romance gótico inglês e a formação do imaginário econômico moderno
Palestra com o Prof. Dr. Daniel Serravalle de Sá (UFSC) Discute-se aqui a relação entre literatura gótica e liberalismo econômico na Grã-Bretanha dos séculos XVIII e XIX, destacando como metáforas e imagens literárias contribuíram para a formulação e assimilação de conceitos econômicos modernos. Partindo de uma abordagem interdisciplinar, argumenta-se que, longe de serem meros reflexos culturais, a ficção gótica funcionou como instrumento crítico e formativo, oferecendo repertórios imagéticos que influenciaram pensadores como Adam Smith e Karl Marx. Passando por obras fundamentais — O castelo de Otranto (1764), Frankenstein (1818), O morro dos ventos uivantes (1847), O médico e o monstro (1886) e Drácula (1897) — examina-se como essas narrativas góticas utilizaram elementos sobrenaturais, figuras monstruosas e cenários decadentes para articular críticas aos sistemas financeiros, à exploração laboral e à mercantilização das relações humanas. Ao reposicionar o gótico como um discurso crítico e formativo, busca-se evidenciar que os temas recorrentes do gótico (disputas de herança, propriedades em ruína, dívidas, fraudes bancárias e transformações monstruosas) materializam as ansiedades de uma sociedade em transição acelerada para o liberalismo econômico e para o capitalismo industrial, contribuindo para a compreensão da literatura como agente ativo na configuração do pensamento econômico. Conclui-se que o romance gótico configurou-se como um contradiscurso à ideologia progressista vitoriana, expondo através de suas ruínas e monstros as contradições sistêmicas do liberalismo econômico, desde a dissolução de hierarquias tradicionais até a alienação humana sob o regime capitalista, mantendo uma tensão crítica entre literatura e economia que permanece relevante para a compreensão do imaginário econômico contemporâneo. O estudo ancora-se em leituras críticas de Kathryn Sutherland, Carol Senf, Stephen Arata, Nina Auerbach, Franco Moretti e Fredric Jameson, que permitem articular a dimensão literária e cultural às transformações do pensamento econômico.

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